Formatar «cabeças duras»

Mercúrio retrógrado em Aquário e Capricórnio – 14 de Janeiro a 3 de Fevereiro

Estamos numa fase em que devemos dar atenção aos pensamentos que temos cristalizados, àquela parte de nós que é «cabeça dura».

Costumamos caminhar pela vida identificando-nos muitas vezes com as nossas ideias e opiniões. Temos crenças estabelecidas que assumimos como verdades. Algum desse arsenal psicológico foi originado em situações traumáticas, que podem ter acontecido não apenas nesta vida, como noutras.

Guardamos memórias inconscientes de situações traumáticas, o que nos leva a ter reações instintivas, despoletadas até por semelhanças mínimas a essas situações. Ironicamente, a própria memória dessas situações não nos está muitas vezes disponível, numa estratégia do nosso cérebro para nos proteger do sofrimento.

Contudo, é essencial que façamos o trabalho interior de procurar a origem destas reações instintivas e desmesuradas face a situações do presente. A compreensão do passado pode-nos ajudar a retirar a dor do presente e a libertar o futuro.

Estamos a ser convidados a desapegar, mas atenção, porque estes convites são sempre feitos à nossa consciência. O desapego que devemos fazer de situações difíceis ou potencialmente traumáticas não deve acontecer inconscientemente – como a beber demais, a jogar demais, ou a perder a nossa vida à frente da televisão ou do telemóvel… Isso não é o verdadeiro desapego. Os comportamentos de escape resultam apenas em memórias reprimidas de emoções que vão continuar a precisar de ser processadas para serem libertadas.

Precisamos de olhar seriamente para o que acontece (ou aconteceu) e tentar fazer interpretações lógicas. Em vez de nos deixarmos levar por aquilo que um acontecimento nos faz sentir, devemos agora tentar percebê-lo, não apenas do nosso lado, mas também do lado dos outros «intervenientes».

Temos em mãos uma excelente oportunidade para aprendermos a distanciar-nos emocionalmente de situações difíceis, ao tentarmos perceber como elas poderão estar a ser vivenciadas pelos outros. Isto servirá para cultivar uma base de amizade, ou pelo menos de respeito, em qualquer tipo de relação.

É tempo de aprendermos a ganhar mais controlo sobre aquilo que pensamos e, consequentemente, sobre aquilo que dizemos, ou, mais importante ainda, sobre como o dizemos.

A nossa mente pode estar cheia de medos, de culpa, a criticar o que fazemos e o que deixamos de fazer, levando-nos a projetar este tipo de pensamentos e sentimentos nos outros. Às vezes acontece que o nosso ambiente interior está tão cáustico, tão borbulhante, que se torna difícil não contaminar os outros em redor.

E quem são normalmente os pobres coitados que têm de arcar com a purga da nossa culpa, do nosso medo, do nosso julgamento? Aqueles com quem nos sentimos mais à vontade. Aqueles que nos são mais próximos. Aqueles de quem mais gostamos.

Por isso, devemos dedicar a nossa atenção a perceber melhor as situações não apenas da nossa perspetiva, mas da perspetiva das várias partes englobadas.

Devemos repensar situações, desapegando do passado, libertando memórias traumáticas.

Devemos alimentar a lógica e a atenção no nosso pensamento e tentar apanhar aquele momento antes de reagirmos (ou o mais cedo possível).

Devemos cuidar das nossas amizades e perceber o que se passa do outro lado – isso pode ajudar a manter a nossa vida em perspetiva.

Devemos refletir acerca dos acontecimentos que ocorreram desde dia 29 de Dezembro, analisar a forma como respondemos às circunstâncias, o que isso despoletou em nós, o que nos fez sentir sobre nós próprios e sobre a forma como nos encaixamos (ou não) no mundo.

Talvez encontremos aqui excelente matéria prima, que nos compete transformar, para subirmos mais um nível no jogo da vida.

Onde é que nos faltou maturidade?

Onde é que devíamos ter tido mais calma e paciência?

Como é que desperdiçámos o nosso tempo?

Com quem é que nos faltou compreensão?

Onde é que tivemos medo de nos expressar?

Quando é que nos expressámos de forma errada?

Será que nos esquecemos da soberania que devemos ter sobre nós próprios, talvez esquecendo-nos de honrar os nossos deveres ou talvez privando-nos dos nossos direitos?

Está claro que o que aconteceu, aconteceu e há coisas que não se podem mudar, pois temos de obedecer a umas quantas regras da física, enquanto estamos neste mundo. Contudo, a nível mental, emocional e relacional temos muito para fazer, mudar, construir e reconstruir.

Esta é a fase para aprendermos mais um pouco, para treinarmos estas questões. Para nos esforçarmos a fazer da nossa mente, dos nossos pensamentos e das palavras que proferimos (aos outros e a nós), ferramentas de construção e de ligação.

É hora de nos libertarmos das amarras da mente. Não temos de ser prisioneiros de memórias, medos e ansiedades. Não devemos ser.

Devemos ser comandantes da nossa mente. Somos nós a guiá-la, não é ela que nos deve controlar.

Para isso, devemos questionar as nossas opiniões e crenças, devemos procurar significados mais positivos para memórias e acontecimentos, devemos domesticar a língua, devemos treinar a compreensão do outro…

Que saibamos ver os nossos problemas como desafios, as nossas dificuldades como aprendizagens. Afinal de contas, a vida não nos dá simplesmente as qualidades que queremos ter, mas dá-nos as situações que nos permitem desenvolvê-las.

Vamos lá aprender a ser comandantes da nossa mente, durante o período de Mercúrio retrógrado:

No dia 14 de Janeiro, Mercúrio, em Aquário, perto de Saturno, inicia a retrogradação, visitando todos os pontos por onde passou desde 29 de Dezembro; reentra em Capricórnio, onde encontra Plutão, e volta ao movimento direto no dia 3 de Fevereiro. No dia 24 de Fevereiro sai da zona de retrogradação e entra finalmente em território novo.